domingo, 10 de julho de 2011

CARTA A QUEM OUSA PENSAR A AÇÃO DOCENTE COMO UM DESAFIO ÉTICO – POLÍTICO



 Ezelita Girão de Menezes Magalhães

zezemenezes@terra.com.br

 



Resolvemos escrever uma carta como ensaio de uma possível e necessária discussão sobre o desafio ético – político na Ação Docente por entendermos ser um dos instrumentos didáticos que atende a formação do educador estabelecendo troca de experiências e ampliação do diálogo entre educadores, como também a interação e reflexão crítica sobre a prática educativa.
Possivelmente correndo os riscos do não cientificismo. Cientificismo tão reverberado na Academia que nos apresenta às vezes reduzindo o conhecimento à opinião e à utilidade, para agradar ou atender a retórica descomprometida, nos levando a pensar na arte maior dos sofistas que buscavam as opiniões mais vantajosas.
Riscos esses que são semente-fruto da nossa formação docente idiossincrásica, na procura-trajetória de assumirmos a nossa ação docente e discente politicamente, indagando continuamente com quem nós estamos, a serviço de quem e de que nós somos educadoras e educadores.
Nos diz Freire sobre correr riscos:

É fundamental que eu saiba não haver existência humana sem riscos, de maior ou menor perigo. Enquanto objetividade o risco implica a subjetividade de quem corre. Neste sentido é que, primeiro devo saber que a condição de existentes nos submete a riscos, segundo, devo lucidamente ir conhecendo e reconhecendo o risco que corro ou que posso vir a correr para poder conseguir um eficaz desempenho na minha relação com ele. (2000:30 – 31).

Portanto essa carta a quem ousa pensar a ação docente como um desafio ético – político, é um exercício de risco e de reflexão dentro da perspectiva do nosso entendimento inconcluso assumido, de que a Ética deve ser compreendida se realizando na Política, porém somente quando esta ajuda a enfrentar os desafios da desigualdade, da violência, da mentira, da corrupção, da oficialização Estatal de nossas vidas impulsionando a reconstrução dos caminhos da humanização.
A Ética na Educação acontece quando os valores humanos e humanizadores perpassam a Ação Docente, ou seja, a Ética como afirmação dos direitos à vida e à liberdade que lemos em Freire, orientando a nossa Ação Docente, seja quando denuncia em discursos, gestos e práticas o processo de desumanização presentes nas ações do Estado e da Sociedade ou quando anuncia o resgate da historicidade e criatividade advindas da consciência crítica dos sujeitos.
O lócus Escola/Universidade é palco da Ação Docente, seja ela Liberal, Progressista ou ainda uma verdadeira panacéia que engessa o ciclo gnosiológico, quase sempre ao puro sabor do modismo das teorias descartáveis, sem criticidade, é só fazer uma leitura no processo histórico, sem cumprir a sua verdadeira Função Social, ou seja, partejar educandos e educadores com - paixão críticos, solidários, criativos, amáveis, arrojados, competentes, cuidantes e, sobretudo, éticos, para o exercício pleno da felicidadania de ser no mundo.
Precisaríamos e, porque não dizer, deveríamos trabalhar a unidade entre o nosso discurso, nossa ação e a utopia que nos move. Para tanto, urge planejarmos enquanto organização social, a escola que queremos, mesmo com todas as forças adversas e antagônicas.
Freire esclarece:

A politicidade da educação demanda veementemente do professor e da professora que se assumam como um ser político, que se descubra no mundo como ser político e não como um puro técnico ou sábio, porque também o técnico e o sábio são substantivamente políticos. A politicidade da educação exige que o professor se saiba, em termos ou em nível objetivo, em nível de sua prática, a favor de alguém ou contra alguém, a favor de um sonho, ou contra um certo projeto de sociedade. A politicidade exige do educador que seja coerente com esta opção (2001:95).
          
Aproveitando, portanto este momento, para nós, significativo, propomos nessa carta a quem ousa pensar a ação docente como um desafio ético – político, desde já, a utilização adequada e racional de três elementos  indispensáveis para a prática educativo-crítica, na qual todo educador deveria ter sempre dentro do seu alforje um espelho, uma lupa e um caleidoscópio.
Explicamos.
O primeiro elemento é o espelho. Sabemos que, devidamente lustrado e sem nenhuma distorção exacerbada de vaidade, reflete nossa imagem, já que nas relações interpessoais é sempre o outro que nos enxerga. Seria o recurso auxiliar de avivamento da memória do educador aprendiz no processo de auto-avaliação, tão necessário para o entendimento de nossa inconclusão e condicionamentos na nossa prática educativa.
O segundo elemento, a lupa, seria utilizado para ampliar e aproximar o objeto do conhecimento, buscando o desocultamento de verdades escondidas, pois como coloca Freire no livro À sombra desta mangueira, a prática educativa enquanto prática docente e discente é uma prática gnosiológica por natureza (2001:79), então a lupa é um recurso importante no desafiar da curiosidade ingênua para a curiosidade epistemológica.
O terceiro e último elemento, o caleidoscópio, que auxiliado por um jogo de espelhos forma imagens que jamais se repetem, ajudaria o educador na perspectiva transdisciplinar de pensar conhecimento. É a representação alegórica da realidade multifacetada em constantes e infinitas mutações.
Acreditamos na educação como intervenção nas mentalidades das culturas organizacionais escolares e universitárias, tendo como base o exercício constante da reflexão ético-social, no sentido transformador e emancipatório contemplando os anseios maiores da humanidade, ou sejam, dignidade e felicidade.
Temos a obrigação de saber cuidar da construção da nossa biografia e da biografia do outro, eis, portanto, uma grande responsabilidade ética da Educação, ou seja, a dimensão cuidante, pois ela nos desafia a sermos fontes de atitudes fundamentais na docência e discência: fonte de liberdade - opção, fonte de iniciativa - ação e fonte de compromisso - responsabilidade.
 Nos lembra Krisnamurt no seu tratado sobre a Educação e o Significado da Vida que a educação convencional dificulta sobremodo o pensar independente, a padronização do homem conduz a mediocridade ou quando diz Rancière que para emancipar a outrem, é preciso que se tenha emancipado a si próprio.
Comenta Freire:

“Quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar-aprender participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a seriedade”. (1998, p.26).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: UNESP, 2000.
FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. São Paulo: Olho d’água, 2001.
FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: UNESP, 2001.
KRISNAMURT, Jidou. A educação e o significado da vida.
RANCIÈRE, J. O mestre ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.












































 
 



 

 

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