terça-feira, 12 de julho de 2011

A LAGOA DE MECEJANA: INTERESSES INTERLIGADOS NA VIVÊNCIA DO LAZER

                   Há quase quatro séculos habitavam as terras de Mecejana os índios Paupinas originários da nação Potiguara que uma parte, banida do Rio Grande do Norte, veio para a “capitania do Siará” por volta de 1535, iniciando assim a história da Mecejana.
                   Conta o livro Iracema de José de Alencar que, Martim Soares Moreno, “o Coatiabo”, precisava viajar para as terras do Maranhão, pois iria combater os franceses e a “virgem dos lábios de mel, cabelos negros como a asa  da graúna e esbelta como talhe de palmeira” não suportando a solidão, já que seu grande amor viajara, passeava sozinha pelas margens da grande lagoa a pensar no seu amor, na aldeia, para aquela atitude de Iracema, deram o nome de mecejana que em tupi-guarani quer dizer, “abandonada” ou “ abandonada na lagoa” ou ainda “ abandonada na lagoa das mangueiras”.
                Na verdade, José de Alencar em seu romance de 1865, transformou as aventuras do considerado fundador do Ceará, Martim, numa bela história de amor na qual explica poeticamente a origem de sua terra natal.
                 O vocábulo ainda hoje designa o lugar, na língua portuguesa é grafado com dois eses: Messejana.
                   A aldeia cresceu e a Lagoa de Mecejana, fecunda aos interesses indígenas lhes proporcionava alimentação, banho, pesca, água boa e biodiversidade, além de muitas brincadeiras aos curumins, era um refúgio ideal para os Paupinas, que viviam sob a égide da paz, abundância e tranqüilidade.
                   O contato dos Paupinas com os exploradores portugueses resultou em perdas para a aldeia, grande parte de suas terras foi destruída e tomada pelos “colonizadores”. O Ceará foi um dos lugares do Brasil em que os índios mais reagiram à invasão portuguesa, dificultando a entrada dos “colonizadores” no sertão.
                     Mecejana virou vila, Mecejana virou cidade e hoje é apenas mais um bairro da cidade de Fortaleza.
                    Os vários interesses com relação à resistente e obstinada Lagoa de Mecejana continuaram e chegamos ao século XXI pelas mãos do poder Municipal, oficialmente inaugurando a “área urbanizada”, com pracinhas, píer de lanchas, pistas de Cooper, quadras poliesportivas, iluminação moderna, marginais a sua margem e insegurança das suas águas.
                   A Lagoa de Mecejana segue resistindo, mesmo chorando o seu abandono com lágrimas poluídas, de peixes às vezes deformadas, de poetas que ainda exaltam a sua saudosa beleza, de artistas plásticos que a retratam e de transeuntes indiferentes a sua história.
                DUMAZEDIER (1973:84), categorizou no campo do Lazer cinco interesses de vivência do homem no seu processo de construção e humanização.
                 A construção deste ensaio teórico tem como fundamentação e objetivo a tentativa de refletir, mesmo que brevemente, sobre os conteúdos das cinco categorias de interesses da vivência do Lazer embasadas na história do espaço social construído pela comunidade em torno da Lagoa de Mecejana.
                 Dizem os estudiosos sobre o lazer, com, por exemplo: (MARCELLINO, 1995:41) que esses interesses se distinguem por dois critérios, ou seja, o processo de produção e a finalidade, mas que esses interesses são interligados e não se esgotam em se mesmos, “ conclui-se que a distinção entre vários interesses só pode se estabelecida em termos de predominância e representando escolhas subjetivas, aliás, evidenciando uma das características das atividades do lazer, ou seja, a escolha individual”.
                  A 1ª categoria: Os interesses físicos fundamentam-se na busca das relações com as práticas dos vários esportes, da pesca e em todas as atividades que prevaleçam os movimentos.
                  A Lagoa de Mecejana movimenta a busca do prazer pelas práticas esportivas desde a época indígena, da pesca de subsistência aos grupos de pescadores amadores que foram se criando espontaneamente ao longo dos anos e que ainda existem, da criançada do passado que fugia dos olhos atentos da família para tomar banho nas suas águas limpas e aprender a nadar, as crianças de hoje que se reúnem todos os dias para os vários jogos de bola.
                   A 2ª categoria: Os interesses práticos ou manuais, possibilidades utilitárias, artesanato, jardinagem, considerado semi-lazer, pois é utilizado também como atividade econômica.
                 Essa categoria depende da atitude do sujeito, da relação que ele estabelece com a natureza. Verificamos em momentos diferenciados da história a preocupação com o paisagismo, com os cuidados em plantar e conservar a Lagoa. Atualmente não observamos mais a olho nu essa inter-relação homem – natureza ou cultivo da flora (mangueiras, coqueiros, cajueiros) que circundam a Lagoa de Mecejana. Com a urbanização houve a preservação da área verde que já existia e de certa forma, houve também a preservação do patrimônio ambiental urbano.
                A 3ª categoria: Os interesses artísticos, os conteúdos são estéticos na busca da beleza, sentimentos, emoções e imaginação.
            Essa categoria é realmente a mais visível na Lagoa, os interesses artísticos são muitos, decantada em prosa, verso, cordel e embolada; retratada pelos mais variados artistas plásticos; palco de inúmeras performances teatrais a Lagoa vem cumprindo o seu papel de musa inspiradora no seu processo histórico.
                A 4ª categoria: Os interesses intelectuais, conhecimento vivido, experimentado.
                As possibilidades vivenciadas e experimentadas por gerações e gerações da comunidade da Lagoa de Mecejana são contadas através das histórias orais e algumas delas relatadas em livros e memoriais.
                A 5ª categoria: Os interesses sociais buscam o repouso, o divertimento, o grupo, a participação nos vários grupos.
               Uma outra categoria de suma importância, também visível e muito atual, principalmente depois da urbanização. Vemos a comunidade mais assídua, andando, conversando, sentado nas pracinhas, rodinhas de xadrez, clube da melhor idade, grupo de jovens construindo a sociabilidade mais sistematicamente, buscando a conviviabilidade humana equilibrada, coesa e em paz.
                É fundamental analisar também que, com a urbanização ou criação de uma infra - estrutura urbanizada houve uma reação articulada partindo da comunidade em se (re) apropriar do espaço Lagoa de Mecejana e democratiza-lo na tentativa de melhorar a qualidade de vida e revitalizar a prática do lazer.
                  Por outro lado, para que essa revitalização das práticas do lazer tenha consistência e continuidade, necessário se faz pensar como amenizar os efeitos nocivos no espaço de lazer no que concerne a violência urbana que hoje infelizmente tem ditado até horários, movimentos e ações que fazem parte da vivência do lazer.
                 Essa violência urbana é fruto de todas as desigualdades e injustiças sociais, da desestruturação do núcleo familiar, da falta de amor, da ausência culposa do Estado, das duas “ordens” sociais que se estabeleceram e se enfrentam, uma a da bandidagem, outra do estado bandido que dita normas e pratica crimes, além é claro fruto das políticas públicas carcomidas em práticas corruptas que minaram e alargaram ao longo da história as possibilidades iguais para todos os sujeitos.
Isso tudo exacerba no homem mal formado por circunstâncias adversas, sem nenhuma oportunidade de vir a ser, pois lhe falta tudo, a periculosidade da (des) humanização que enseja o caos social urbano que estamos vivenciando nessa terra brasilis, limitando os direitos constitucionais de ir, vir, viver, trabalhar, vestir, morar e lazer daquele que constrói a sua cidadania a duras penas, cerceando a sobrevivência harmônica humana e igualitária dessa nação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALENCAR, José. Iracema.
DUMAZEDIER, Joffre. Lazer e Cultura Popular. São Paulo, Perspectiva, 1973.
MARCELLINO, Nelson Carvalho, Lazer e Humanização. Campinas, São Paulo, Papirus,1995.


 

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